Casa Vazia

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Tantas estradas e brilho sem fim
Tantas viagens e sonhos
Tanta vida, tanta força
E quanta coisa pra ser feita
Mas é hora de voltar e ficar.
Só ficar

***postado por Fabrício Yuri - 10:16


Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Casa mais vazia

Ele corria a casa toda,
E fazia pose no sofá.
Ele corria a grama toda,
E só parava ao cansar.

Amigo rebelde de pelúcia,
esperto cãozinho blasé,
truques, ele sabia todos,
mas só fazia o que quisesse fazer

Iogurte, doce, arroz e cenoura,
acabou-se a farra na porta,
o latido na janela de outrora,
a corrida tresloucada, agora,
repousa, descansa. Vai doer,
os olhos que fechavam ao sol
ficaram abertos ao anoitecer

E o vazio que fica,
o silêncio que lembra,
É o que me faz crer:
Um dia vou te ver
E contigo correr

Descansa, amigo, não sofre mais
Late pra gente nos sonhos
E brinca na lembrança dos momentos
que não voltarão jamais...

***postado por Fabrício Yuri - 10:11


Sábado, Agosto 30, 2008

Oliveiras

Na maioria das vezes,
não viemos ao mundo
para fazer algo.
Viemos para começar algo.
Satisfaz ver acontecer.
E glória é ver terminar.

***postado por Fabrício Yuri - 00:10


Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Leões de consultório

Dentre as centenas de vezes que fui ao médico, uma vez me marcou. Era um médico cheio de títulos, diplomas, parecia muito competente. E realmente era. Mas, durante as avaliações, ouvi uma conversa de que ele havia largado a medicina de hospital, por achar muito pesado. Plantões, finais de semana, feriados, 48h, 36h, 24h, noites viradas... A vida dele parecia um inferno, da forma que ele contava. Mas o estranho é que ele realmente não me convencia. Eu tinha uns 15, 16 anos, e mesmo assim ele não me convencia. Entre um exame e outro, o papo com o assistente continuava. Ele, clinicando, de 9h até as 17h, e o assistente ainda na vida de hospital. Era tão visível que ele havia trocado a natureza pela conveniência e queria estar com a mão na massa... Mas tão naturalmente frustrado em sua tentativa de simplificar e justificar a mudança forçada de curso do rio, que não era nem verossímil, nem consistente.

Um leão enjaulado, que deixa de agir, rugir e caçar como um leão, ainda é um leão?

***postado por Fabrício Yuri - 16:23


Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Se há portas...

Não é pecado bater em portas. E você não tem culpa se incomoda. E não tem mérito se não incomoda. Mas o fato é que bater em portas pode ser frustrante. Não do tipo que tira seu sono e te faz baixar a cabeça e virar os olhos. Mas na medida que é frustrante não ser atendido ou não haver ninguém quando se chama. "Perdi a viagem", você pensa. Mesmo que a viagem seja um clique.

Mas não é pecado bater em portas. Talvez seja um pecado maior - no sentido ligeiramente religioso da palavra - não abrir a porta quando alguém bate.

Dia desses alguém bateu na porta da casa vazia. E encontrou um bilhetinho assim:

"Desculpe, tenho esse blog há anos, muitos, aliás. A proposta dele não é essa [que o visitante solicitara], e sim, passar sinais, como quem pisca as luzes, pela janela, de uma casa vazia para que alguém que esteja fora entenda.

De qualquer forma, como vc pode perceber. A casa está sempre vazia. O que não quer dizer que haja ou não alguém."

***postado por Fabrício Yuri - 17:44


Terça-feira, Junho 10, 2008


'Gosto quando você não tem preocupações e podemos só conversar e rir. Gosto quando a gente se diverte e você ri, e abre os braços, e pula. Sei que ninguém pode ser feliz o tempo todo, e por isso gosto da tua serenidade, do tipo 'quero ficar só e não falar com ninguém'. Gosto até quando você dizia 'minha cabeça dói, pode ficar em silêncio?' Gosto quando você me liga para falar como foi seu dia e como as coisas andam no trabalho e me pede conselhos, mesmo que não os ouça e não vá fazer nada do que eu digo. E eu digo pouco, às vezes rápido, com pressa de fazer não sei o quê, afinal, o que pode ser mais importante que você? Mas as coisas tomam um rumo tão estranho na vida, que as coisas mais importantes são aquelas para as quais a gente dá menos valor. Aquelas que a gente mais dá como certa. Por isso dou tanta bola para tudo o que você fala e sempre questiono. Tudo o que é importante e certo, a gente duvida, provoca, para ter uma reação... Mas fico triste quando você fica triste, sem motivo. Gosto quando você fica feliz com pequenas coisas e supera grandes coisas, mas tudo tem sido tão pequeno que as alegrias vão se tornando poucas, a convivência mínima e as conversas escassas. A força vai minguando junto com os sorrisos, e eu não gosto de chegar e ver tudo fora do lugar. As lágrimas, o silêncio e as queixas. Tudo tão fora de lugar, tão sem propósito. A ausência, o silêncio, as lágrimas. É triste e eu não gosto. Por isso minguo junto. E essa entrega, que você tanto questionava, vindo de você me ofende tanto, mas tanto, que eu não aceito e parto para o ataque. Não ataco você, mas essa entrega toda, essa entrega não é você. Logo você, que sempre me dizia 'você não pode se entregar!'. Nem para doenças, nem para tristeza, nem para o trabalho! Você pode tudo, eu sei, pode ainda mais. Mas não quer. E, se não quer, não adianta brigar. Vou tentar e não vou mais brigar. Vou tentar com a força que você me ensinou a ter e esqueceu que tem.'

***postado por Fabrício Yuri - 13:24


Quinta-feira, Maio 01, 2008

Que sonhos? ... Eu não sei se sonhei ... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

A Casa Branca Nau Preta - Álvaro de Campos

Fui viver um pouco. Daqui a pouco eu volto.

***postado por Fabrício Yuri - 12:38


Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Nunca me deram mole, não (melhor assim)
Não sou a fim de pactuar (sai pra lá)
Se pensam que tenho as mãos vazias e frias (melhor assim)
Se pensam que as minhas mãos estão presas (surpresa)


Ilex Paraguariensis

***postado por Fabrício Yuri - 07:14


Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

A ÁRVORE DA SERRA

— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


Augusto dos Anjos

***postado por Fabrício Yuri - 07:12


Terça-feira, Dezembro 18, 2007

As mãos
são a paisagem do coração.
Elas se separam às vezes
como desfiladeiros
para que forças indescritíveis rolem.

A mesma mão que o homem
apenas abre quando cheia de fadiga,
agora ele percebe:
por causa dele somente,
outros podem caminhar em paz...

Mãos são como paisagem.
Quando se abrem,
a dor de suas mágoas
corre livre como riacho.
Porém, sem sentimento de dor...
sem grandeza de dor...
Apenas para sua própria
maravilha de grandeza
Ele não conhece a forma
de nomear a mesma.

Andrzej Jawien
pseudónimo literário de João Paulo II
(1960)

***postado por Fabrício Yuri - 06:40


O tempo cura feridas,
e afasta as pessoas.
E transforma tudo o que
era bom em coisa ruim.

O tempo faz crescer
e morrer árvores. E
brotar e secar frutas.
E amarelar folhas.

O tempo transforma
o que era ruim, em bom.
E afasta os amigos.
E aumenta as lembranças.

O tempo te alimenta a
memória. E te mata
a vida de fome. E de sede,
e traz novos amigos
aos teus amigos.

E transforma amizades
num adeus 'até breve'.

***postado por Fabrício Yuri - 06:29


Sexta-feira, Novembro 30, 2007

João Cabral de Melo Neto disse
quando tinha Sevilha em Casa

Tenho Sevilha em minha casa.
Não sou eu que está chez Sevilha.
É Sevilha em mim, minha sala.
Sevilha e tudo o que ela afia.


E eu digo:

Nem sempre Sevilla é Sevilla.
E cada um de nós tem a sua
capital da Andaluzia.

***postado por Fabrício Yuri - 11:38


Terça-feira, Outubro 30, 2007

'Se um leão pudesse falar
Nós não poderíamos entender'

Wittgenstein

***postado por Fabrício Yuri - 06:50


Terça-feira, Outubro 16, 2007

Emersão

Para um descanso
uma pausa
um respiro
um suspiro
os olhos fecham
o ar pára de entrar.

Isolamento, solidão
reação à ingratidão
ao momento em que
faltou a mão,
isolamento, solidão.

Para um devaneio,
sem causa
um retiro,
intranqüilo,
os olhos abrem.
É hora do ar voltar.

Porta aberta, iluminação
causa a percepção
ao tempo em que
sobrou indiferença
e faltou exatidão.

***postado por Fabrício Yuri - 06:49


Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar
e vogar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar,
o meu coração
fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.

Alexandre Daskalos. Poesias, 1961

***postado por Fabrício Yuri - 14:21


Terça-feira, Outubro 09, 2007

Mãe com criança ao colo

No lugar do corpo onde esperou
sua vida frutificar
vai agora afagando a imobilidade

Aconchegando o menino morto
ela prepara seu ventre
para o inverso parto:
da luz para o útero,
da dor para o nada

Pendentes,
os seios
imitam outonais folhas
da mais imutável estação

E só o chão se espanta
por restar uma água
para à tristeza
dar o último redondo ventre

António Emílio 'Mia' Couto - Novembro 1984

***postado por Fabrício Yuri - 06:57


'Não posso com as pessoas que se fardam de escritores, não posso com essa história das fardas. Eu não posso tomar a sério as pessoas que se levantam de manhã e têm que vir para a rua representar o seu papel de literatas. Algumas desilusões são assim mesmo -- uma pessoa admira um poeta determinado e, depois, quando se conhece, vê-se que algumas dessas pessoas são perfeitamente parvas, anedóticas, e duma pose...'
Rui Knopfli

***postado por Fabrício Yuri - 06:53


Quinta-feira, Outubro 04, 2007

Algumas vezes a gente sai de casa. E se esquece de casa. E até esquece o caminho de casa, se sente sozinho, fala sozinho e até chora sozinho. A gente pensa que está sozinho, se sente poderoso, mas está mesmo é triste. E aí a gente estraga muita coisa - já que não dá para estragar tudo -, faz besteira e dá com a cabeça na parede. Uma, duas, dez, vinte, cem vezes. E não entende por que tudo deu e está dando errado. Aí a gente lembra de uma luz na varanda, de uma porta, do caminho de casa. E lembra que sempre tem gente em casa, alguém esperando por você. E por mais que a gente ache que não, sempre tem. E aí a gente volta para casa. Então, não adianta, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, a gente volta para casa. Onde quer que seja ou esteja. Sempre acabamos voltando, porque esse é nosso destino. Voltar sempre.

***postado por Fabrício Yuri - 06:39


Terça-feira, Setembro 11, 2007

"O contrário da vida é o imobilismo - disse Sem Medo. - No amor é a mesma coisa. Se uma pessoa se mostra toda ao outro, o interesse da descoberta desaparece. O que conta no amor é a descoberta do outro, dos seus pecadilhos, das suas taras, dos seus vícios, das suas grandezas, os seus pontos sensíveis, tudo o que constitui o outro. O amante que se quer fazer amar deve dosear essa descoberta. Nem só querer tudo saber num momento, nem tudo querer revelar. Tem de ser ao conta-gotas.

E a alma humana é tão rica, tão complexa, que essa descoberta pode levar uma vida."

Mayombe
Pepetela

***postado por Fabrício Yuri - 00:41


Sábado, Agosto 11, 2007

I wish I was a sentimental ornament you hung on
The christmas tree, I wish I was the star that went on top

I wish I was a sailor with someone who waited for me
I wish I was a messenger and all the news was good

I wish I was the souvenir you kept your house key on
I wish I was the pedal brake that you depended on
I wish I was the verb to trust and never let you down

I wish I was a radio song, the one that you turned up

(wishlist, Pearl Jam)

***postado por Fabrício Yuri - 20:06


Quem...
Fabrício Yuri Vitorino
fabyuri@mail.ru
yuri@ufrj.br
MSN: fabyuri@hotmail.com
ICQ: 21638877

Os Livros...
The Beatles - Bob Spitz
Mais rápido do que a velocidade da luz - João Magueijo
Slash - Anthony Booza
Subscrito a Giz - David Mestre
O Jogador - F. M. Dostoievski

Os Discos...
Plebe Rude - Enquanto a trégua não vem
Mypollux - Contraire
Konstantin Nikolski - Nochnaya Ptisa
Engenheiros do Hawaii - Filmes de Guerra...
Anthrax - Sound Of White Noise
Sentenced - The Cold White Light
Brujeria - Matando Gueros
Mark Knopfler - Shangri-La

As Músicas...
Sentenced - Despair-Ridden Hearts
Alexandr Rozenbaum - Odinokiy Volk
Radiohead - Paranoid android
Apocalyptica & Cristina Scabbia - Worlds Collide
After Forever - My Choice
Vanilla Fudge - Ticket To Ride
Drowning Pool - Bodies
Pantera - Floods

Lugares onde estou...
No verde de Pisa e no cinza dos becos de Veneza

Num apto. com mil pessoas ou num churrasco em Moscou

No branco gelado de Blumenau e do Sul

No celeste rubro da Corrientes, Buenos Aires

No azul de Santorini, no Vermelho de Mykonos

E na paz sonora da Tijuca, RJ

Outros eus...
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